Idealizado com o objetivo de ser um fundo emergencial de microcrédito voltado a empreendedores que estejam enfrentando dificuldades financeiras em decorrência da pandemia do novo coronavírus, o Fundo Periferia Empreendedora já investiu mais de 200 mil reais em negócios periféricos em todo Brasil.
O Fundo é uma parceria entre quatro empresas: a Escola de Negócios da Periferia para Periferia: Empreendeaí, que o trabalho é capacitar novos empreendedores de favelas e periferias; a Firgun, uma fintech que contribui para a redução das desigualdades sociais a partir de crédito produtivo; Desabafo Social, laboratório de tecnologia sociais aplicadas à geração de renda, comunicação e educação; e a Impact Hub, que tem por missão decodificar as mudanças socioeconômicas, compreendê-las e convertê-las em ações concretas.
Já foram feitos mais de 390 cadastros para receber o Fundo e 104 negócios foram contemplados com o microcrédito. A região Sudeste figura entre as que mais solicitaram (70%), seguida do Nordeste (15%) e Sul (6,5%). O perfil dos empreendedores constitui-se majoritariamente por mulheres (65%) e pretos e pardos (66%).
Os créditos são de R$500 a R$3 mil exclusivamente a empreendedores periféricos, com 120 dias de carência, parcelamento em até 20 vezes e política de juro zero, que funciona da seguinte maneira: será cobrado 1% de juros ao mês nas parcelas, porém os empreendedores que pagarem todas as parcelas em dia, não precisarão pagar as últimas. Nesses casos o empréstimo fica sem juros.
Dentre as áreas de atuação dos negócios, as que se destacam são de prestação de serviços (25%), alimentação (19%) e moda (14%).
O impacto do Fundo nos empreendedores
Priscila Novaes, 36, começou a empreender na gastronomia ainda em 2009. Ela não se encontrava no mercado de trabalho e as oportunidades que surgiam eram em subempregos e mal remunerados. Decidiu montar uma barraquinha de café da manhã na estação Guaianazes, zona leste de São Paulo, visto que gostava de cozinhar e, assim, poderia exercer uma profissão e que unia um prazer pessoal. Com o tempo, entretanto, percebeu que, embora o sucesso e a qualidade da comida fossem aprovados pelo público, precisava adquirir conhecimentos para gerir o negócio. Daí foi o pontapé para se profissionalizar.
Iniciou um curso técnico em cozinha e logo depois começou a trabalhar em festas públicas, universidades, bares sempre “levando a sua cozinha”. Em 2012, entrou para o grupo Mulheres de Orí, na qual cada um desenvolvia um tipo de arte e, a escolhida por Priscila, foi a gastronômica. Dessa forma foi ganhando mais visibilidade e os clientes aumentaram. Quando estava estudando, porém, pouco se reconhecia no que era apresentado; Priscila estava habituada a cozinha afro-brasileira. Conforme seu negócio foi se consolidando, viu que a missão da Quitanda das Minas era difundir a gastronomia afro-brasileira.
Com a pandemia, a Quitanda das Minas foi diretamente afetada justamente por ser caracterizada com um buffet que, por consequência, é requisitado em festas e eventos- todos cancelados por conta das medidas de restrição social. “O Fundo foi completamente importante porque conseguimos refazer o nosso estoque, pensar em embalagens e contratar um entregador”, explica Priscila que o microcrédito foi como uma luz no final do túnel, que possibilitou manter a equipe e continuar oferecendo os serviços.
Situação similar é compartilhada por Marilene Raquel, 34, proprietária da Pérola Negra, especializada em moda africana. A empreendedora do Capão Redondo, zona sul de São Paulo, divide o negócio com as suas irmãs e tinham como principal via de vendas feiras públicas e o ateliê.
Com o isolamento social, entretanto, os eventos foram cancelados e Marilene investiu em vendas por aplicativos de mensagem e pelas redes sociais. Os clientes podem retirar as roupas também no ateliê, mas respeitando horários pré-estabelecidos para que não haja aglomerações. A ajuda do Fundo, ela diz, contribuiu para que o negócio pudesse continuar funcionando e organizar financeiramente os fluxos de entrada e saída de caixa.