A viuvez da opinião

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“Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim”. Esta frase proferida pelo saudoso escritor e humorista, Millôr Fernandes, poderia estar perfeitamente grafada nos muros invisíveis construídos pela populosa turma da razão mais emotiva de que se tem noticia no país.

As últimas eleições no Brasil, mais precisamente a disputa presidencial, trouxeram um gancho que se estende desde as grandes manifestações de junho, passando pela realização da Copa do Mundo e, tomando rumos diversos de comum acordo a sabe se lá o que de fato.

Durante meses de campanha, várias frases de autores consagrados foram citadas e jogadas no ventilador mais próximo do ouvido alheio, expressões marcantes de períodos históricos memoráveis ocasionaram o apagão de contextos primorosos, teorias da evolução andaram de costas e deram espaço a da conspiração, mártires do Comunismo e provas da eficiência do Capitalismo no mundo moderno se misturavam em meio à enxurrada de acusações carregadas de ódio e de palavras afiadas como navalhas, usadas de maneira vil como armas mortais nas guerras verbais de uns contra os outros em rodas de amigos, redes sociais, salas de aula e outras denominações precipitadas das reuniões da “ágora” moderninha.

Passado o resultado das eleições, presenciamos a evidência do despreparo político e do desprezo do cidadão brasileiro por sua própria história, por sua geografia e pela filosofia que se preze. Processo este, que ganhou corpo com o advento da democracia ao fim do período militar e com a queda do primeiro presidente eleito pelo cidadão brasileiro que tomou posse em Brasília. A partir destes importantes momentos, o povo passou a ter uma liberdade de escolha que não sabia como lidar e, juntamente com esta conquista passou a ter uma arma poderosa em mãos que talvez por vislumbre foi munida de interesses, interesses estes que é claro não foram atirados no mesmo alvo. Os tiros democráticos redesenharam a polarização de dois partidos dominantes que se alternam no governo do país, nas principais capitais e é tema central nas disputas do grito mais alto que ecoa nas estapafúrdias “trocas de gentilezas”.

Chegamos ao final de 2014 e as manifestações que passam diante de nossas janelas são aquelas que pedem a volta de um passado obscuro que nem ao menos conseguimos revelar por completo, de uma marcha de pessoas carregando foices, pedras e espadas, clamando por reformas que não estão claras nem mesmo nelas próprias. Talvez a massa esteja sofrendo da viuvez de uma opinião decadente, deixada a própria sorte em um país plural de tantas cores e cantos, mas que teima em expor sua beleza a qualquer amante tupiniquim vestido de salvador.

 

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