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Eurides Nascimento, 39, criou a LibraMais, empresa para difundir a língua brasileira de sinais Imagem: Arquivo pessoal

Sociedades

Empreendedora baiana quer difundir língua de sinais e promover inclusão

Guilherme Soares Dias, colaboração para Ecoa de São Paulo

A empatia, termo em voga nos tempos atuais, foi o mote para a abertura da Libra Mais, empresa que faz cursos, consultoria, materiais pedagógicos e interpretação de apresentações da língua brasileira de sinais. À frente do negócio, Eurides Nascimento, 39, conta que quando terminava a graduação de Letras em 2009 percebeu que muitas pessoas não conheciam aquela que é a segunda língua oficial do Brasil. “Muita gente tinha só o básico e considero que a língua reflete mais do que apenas o aprendizado de gramática”, conta.

Eurides ressalta que sempre a perguntam se tinha uma pessoa surda na família, mas que o motivo de abrir a empresa foi a empatia de perceber que tinha um segmento linguístico importante para uma parcela da população que era pouco difundido. Hoje, são cerca de 9,5 milhões de surdos no Brasil. A Libra Mais nasceu em 2013 e desde 2016 começou a fazer também interpretação do que era dito ou cantado em shows, apresentações culturais e, nesses tempos de pandemia, de lives. “Esse é um case de sucesso. Temos tido muita demanda nesse período. Desde shows, a eventos de empresas, passando por pessoas da área política”, afirma.

Os intérpretes chamam a atenção nas transmissões por dançarem ou se expressarem no ritmo que as apresentações correm. “A interpretação perpassa pela verdade. Quem faz tradução de shows dança e curte o trabalho. Há expressão facial e corporal da cadência do discurso. Eu, por exemplo, sorrio porque é a melhor coisa que sei fazer na vida”, ressalta.

A empresa orienta ainda para que as empresas promovam a acessibilidade de fato. “Há quem coloque o intérprete só para cumprir tabela em tamanho que é impossível de ver”, ressalta, emendando: “a acessibilidade é boa para todo mundo. Existem pessoas surdas que jamais conseguiriam especialização. Ter mais pessoas informadas é abrir horizonte para o social,”, defende.

Hoje, a Libra Mais conta com três pessoas e emprega outros profissionais de forma freelancer. Eurides acredita ainda que o mercado de interpretação de lives, que aumentou durante a pandemia do coronavírus, veio para ficar, já que eventos presenciais demandam mais logística. O “Mais” do nome da empresa reforça que o foco é atender também pessoas que possuem outras deficiências, como as de baixa visão ou cegas. Além disso, a empresa lançou um novo projeto chamado “Sinal Amigo”, em que pessoas da área de libras realizam escuta em rodas terapêuticas.

Para a empresária, o maior desafio é a sustentabilidade financeira. Sem aportes de investidores, a Libra Mais vive com o dinheiro dos cursos e consultorias, mas no caso das capacitações apenas 30% pagam, já que famílias de pessoas surdas são isentas. “Contamos com doações”, ressalta ela, que capacita cerca de mil pessoas por ano.

Ser negra e mulher à frente de uma empresa é, segundo ela, uma interseccionalidade “potente e desafiadora”. “Isso se acrescenta à maternagem. Quando me tornei mãe, há quatro anos, a empresa deu um boom, pois fui percebendo que não somos educados para a língua de sinais”, ressalta. Além disso, a marca que tinha uma imagem de mão branca, passou a ter uma mão negra representando-a. “Passou a ter mais a ver comigo e com meu público”.

Eurides diz que, apesar de não ter aprendido na escola a como realizar negócios, vem de uma família de empreendedores. A avó, conhecida como Yá Perina, era uma feirante analfabeta que estava à frente de um terreiro em Cachoeira (BA) e fazia negociações na Irmandade da Boa Morte. “O maior desafio é se fazer referência no mundo dos negócios, sendo mulher, negra, mãe e periférica. E muita gente diz que só vai realizar esses processos se for comigo. Tem uma causa por trás de outra, que é a acessibilidade”, resume.

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A Curadoria Ecoa

As histórias e pessoas apresentadas todos os dias a você por Ecoa surgem em um processo que não se limita à pratica jornalística tradicional. Além de encontros com especialistas de áreas fundamentais para a compreensão do nosso tempo, repórteres e editores têm uma troca diária de inspiração com um grupo de profissionais muito especial, todos com atuação de impacto no campo social, e que formam a nossa Curadoria. Esta reportagem, por exemplo, nasceu de uma conexão proposta por Ítala Herta, curadora do ciclo Re_construção.

Ítala Herta, cofundadora da Vale do Dendê Imagem: Raul Spinassé/UOL.

Imagem: Arte/UOL
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