Da academia para atuação: Insegurança e questionamentos

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Por: Bernardo Nascimento

Foram longos 5 anos jogado em artigos, leituras, estudos, teorias, técnicas, dados e uma infinidade de informações.  Fui da teoria à prática, da clínica até ONG, mas recentemente descobri que pouco me serviu o que devorei de informações.

Fui para uma comunidade conhecida pelo alto índice da violência e do tráfico. Ok, algo novo em questão de ambiente, iria sair do centro-histórico da cidade e iria para uma extremidade regional. Violência? Drogas? Tudo bem, aqui onde hábito também tem índices relevantes sobre isto, irei fazer o link desses dados com identidade de gênero e sexualidade para adolescentes. Uma tarefa nova, achei que só precisaria de algumas adaptações na minha fala. Assim, fui!

Dois ônibus, engarrafamento, um sol daqueles e 2 horas até o destino final.

Aqui começa (prática) meus 5 anos de estudos para quê e para quem?! Desgaste físico de uma viagem turbulenta, mental, só queria chegar e cheguei. Agora vamos imaginar como é isso para aquela comunidade? Gastar uma grande parte do seu dia apenas para se locomover?

De cara vi a diferença na região. Igrejas evangélicas a cada duas casas, um monte de comércio, muita gente, cada um vendendo seu peixe. Entro no ambiente que iria falar e me deparo com várias famílias, todas esperando para serem atendidas.

Entrei me questionando sobre a vivência de cada integrante das famílias ali presentes.

Pode entrar os adolescentes! Eram o total de 10 adolescentes entre 13-16 anos e apenas 1 com 22 anos. Entre eles uma adolescente e sua filha recém-nascida. Todos negros. A maioria na escola e já haviam dado início a vida sexual.

Por que trago esses dados?

Adolescentes que vem de famílias expostas a vulnerabilidade, morando num lugar conhecido por ser perigoso e o que eu poderia ajudar?

5 anos de estudo para quê e para quem?

Iniciamos o diálogo com álcool e outras drogas, todos já tinham consumido álcool e alguns, maconha. Risos foram a principal resposta para nossa monologa fala. Esses adolescentes que estavam ali para ouvir algo de nós e eu que estava ali para explicar algo para eles que no decorrer da conversa já não fazia sentido estar naquele lugar, eu tenho muitos privilégios que nunca me libertei para de fato entender aquela realidade.

Drogas lícitas ou ilícitas? É tudo ilícito para aquela população, o que elas fizerem é motivo para serem tombados como alguém que fez algo extremamente errado digno de morte.

Drogas lícitas ou ilícitas? Tudo é lícito para eles que convivem com isto para sobreviver a isto (sistema).

Sempre achei que é dever da escola ajudar na educação e cidadania de qualquer sujeito, mas o que ouvi ali me causava pânico. “Como é na sua escola?” “tio, lá eles escondem armas, maconha, pó, a polícia vive lá revistando nossas coisas, os professores têm medo, mas se vier para cima de mim o buraco é mais embaixo, vou para cima também”.

5 anos de estudo para quê e para quem?!

Vamos linkar o tema Álcool e outras drogas com identidade racial.

“O que vocês vêem de igual nas pessoas que são mortas ou presas que passam no noticiário?” um silêncio e depois uma das garotas respondem “é tudo preto”, uma outra se olha, toca os braços e rir. Os meninos logo se identificam ” eu já cansei de levar baculejo de polícia. É porque sou preto e favela, mas os cara que eles tem que prender, num prende” (“baculejo” é nome utilizado para falar sobre a abordagem policial).

As coisas começam a melhorar no sentido do diálogo, saio do monólogo. Identificação racial foi um sucesso, agora estava um tanto quanto satisfeito por eles entenderem o lugar deles e como se protegerem disto (bom, espero que isso tenha acontecido).

Agora vamos fazer o link disto tudo com identidade de gênero e sexualidade!! Minha hora chegou, vou falar!

Inicialmente, para ter uma noção do quando aqueles adolescentes que, já iniciaram suas vidas sexuais sabiam sobre seus corpos, realizamos a tal pergunta engajadora “o que vocês entendem por sexualidade e gênero?”, obtivemos respostas vazias e problemáticas. Os meninos mais novos disparavam que eram homens, que transaram com várias e traíram suas companheiras (uma companheira estava lá). Frases machistas e misóginas tomaram conta do ambiente. As meninas se retraíram, não falavam, já não olhavam para os meninos e nem para nós. Se tornou um papo apenas dos meninos para os meninos, eu já tinha perdido a linha de raciocínio do que falar e como falar.

Meninos de 13 anos falando sobre agredir meninas, transar com todas e serem seus donos. Que não pode andar de mãos dados com outros meninos e que riem de pessoas LGBTS (aos sussurros algumas coisas mais pesadas) as meninas então resolvem falar, minha esperança estava ali, mas elas apenas concordaram, falaram sobre ser feio mulher com mulher e homem com homem.

5 ANOS DE ESTUDO PARA QUÊ E PARA QUEM?

Me resta falar sobre educação sexual, falar sobre prevenção e falar para as meninas que elas não precisam aceitar tudo que os homens falam, que temos dispositivos para atende-las caso exista violência e falar para os meninos que eles podem fazer coisas ditas femininas, eles não deixarão sua masculinidade ferida. Encerramos nosso papo. 2 horas e meia.

Nunca sai tão derrotado de algum lugar como sai daquela sala. Até hoje me QUESTIONO sobre meus estudos e esforços, até onde eles chegam? Evolução para quem? Desconstrução para quem? Ajuda para quem? E como chegar até eles de forma eficaz?

Uma triste realidade pautada no machismo e misoginia enraizados na cultura brasileira. Mudamos a cultura ou vamos mudar nosso jeito de levar saúde para essas pessoas? 5 anos não foram suficientes para aprender.

Perdi essa luta, mas não posso perder a guerra, continuemos a lutar, resistir, estudar, quebrar nossos privilégios e chegar onde de fato precisamos ir, em todos os lugares. De vielas, becos, salas de aula até espaços institucionais.

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