Autoestima e afetividade da mulher negra

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Por: Brenda Cruz

Pauta habitual no dia a dia das mulheres negras, a discussão sobre o elo entre auto estima e afetividade, vem se amplificando através das redes sociais. Mulheres negras deixam claro em depoimentos, suas vivências diante dos processos diários de construção da sua autoestima e resistência ao conviver com a solidão. Esses produtos são fenômeno de processos históricos e culturais oriundos de mais de 300 anos de violências e estereótipos que nos foram associados.

Ao debruçar-nos em um apanhado histórico sobre a trajetória de mulheres negras próximas ou não a nós, é possível encontrarmos vestígios das problemáticas que envolvem solidão e auto estima. Com a infância marcada pela falta de representatividade e pelos conflitos de identidade nós mulheres negras, carregamos diversas feridas marcadas pelo racismo, machismo e principalmente pelo sexismo. O que nos leva diretamente ao que tange nossa afetividade.

“Muitas mulheres negras sentem que em suas vidas existe pouco ou nenhum amor.” – Bell Hooks, em Vivendo de Amor.

Hooks, há anos atrás já nos informava o quão é violenta a problemática que perpassa sob nós diante da afetividade ou o preterimento da mesma, em seu famoso texto “Vivendo de amor”, que trata exatamente da dificuldade do reconhecimento da mulher negra como sujeito para ser amado. Esse preterimento traz diversos impactos psicológicos que podem servir como gatilhos para problemas mais graves como ansiedade e depressão. Clélia Prestes, mestre e doutoranda em Psicologia Social pela USP e psicóloga do Instituto AMMA Psiquê e Negritude, em entrevista para Revista Fórum fala sobre as implicações que a solidão afetiva pode acarretar para a autoestima das mulheres negras. “Desde o nascimento e ao longo do processo identitário, a autoestima é influenciada pelos referenciais coletivos de beleza, nos quais as mulheres negras praticamente não estão representadas, apesar da maioria da população brasileira ser negra. Como resultado, no imaginário social e em concepções pessoais, pensamentos e sentimentos que tratam a diversidade com hierarquia de valores, prejudicando drasticamente a forma como mulheres negras são vistas e, consequentemente, sua autoestima e relações afetivas” afirma.

Em tempos da vigência do termo “amor afrocentrado” (ou melhor dizendo, relacionamento mono racial) como tratando de relacionamentos envolvendo duas pessoas negras, o preterimento também está presente. Homens negros se vangloriam com os discursos batidos em redes sociais afirmando o quão valorizam e amam mulheres pretas, e por trás de todo esse discurso estão as traições com mulheres brancas. Eles não assumem os relacionamentos com suas parcerias negras ou então suas companheiras brancas que levam o apelido de “pretas”. Sempre carinhosamente utilizando-se do clichê “amor não tem cor”, trazendo a nós mulheres negras reflexões e dores cada vez mais presentes. Este cenário acaba tornando muitas mulheres, mais vulneráveis a relacionamentos abusivos e travando uma batalha incessante entre a construção da masculinidade negra e os nossos des(afetos) como comunidade.

Tratando-se de homem branco, as problemáticas acabam aumentando quando os fatores de racismo e hipersexualização se fazem presentes. Por todos os lados a afetividade da mulher negra se vê ameaçada ou até mesmo inexistente. Questões como sexualidade, classe e gênero também são potentes dentro desse tema.

Reforçando Hooks, voltamos ao seu texto Vivendo de amor, no trecho em que a escritora diz: “Se passarmos a explorar nossa vida interior, encontraremos um mundo de emoções e sentimentos. E se nos permitirmos sentir, afirmaremos nosso direito de amar interiormente. A partir do momento em que conheço meus sentimentos, posso também conhecer e definir aquelas necessidades que só serão preenchidas em comunhão ou contato com outras pessoas.” E nos mostra o quão é necessário reforçar o discurso de que a reconstrução dessa auto estima frágil é importante para que possamos reconhecer os nossos problemas para além da solidão, nos conhecer e não cair na falácia de que só seremos felizes e completas com um/@ parceir@ ao nosso lado.

Enquanto nós mulheres negras pensamos dentro do feminismo negro pautas e estratégias de auto-amor e cura, vamos através da escrita levantando questionamentos e trazendo incômodos como este. O preterimento da afetividade da mulher negra é um atenuante das questões que perpassam sobre a nossa autoestima e boa parte dos nossos problemas emocionais. Auto estima essa que batalhamos para construir e partilhar todos os dias. Mas como disse Cris Vianna “Mulher preta renasce das cinzas. Isso é fato.” Somos fênix. E seguimos renascendo. Todos os dias.

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