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Por Laís Monteiro

 

“Você é boa, fala bem, mas tem algo na câmera que não está funcionando, tenta abaixar um pouco o cabelo, está muito volumoso, talvez melhore”.

Trabalho com imagem, sou jornalista. Em uma entrevista de emprego ouvi que deveria abaixar meu cabelo para minha imagem ficar harmônica na tv, ou seja, que o cabelo, crespo e black, não fica harmônico na televisão.

Apesar dos pesares, eu não me assustei com a situação, de uma certa forma já estava psicologicamente preparada para essa abordagem, afinal, tenho plena consciência que vivo em um país onde o padrão de beleza imposto e mostrado na frente da tv, não condiz com a estética da maior parte da população. Então, é comum que queiram pessoas que se encaixem nesse padrão, que exclui negros, ou se forem, que tenham cabelo, traços e jeito de branco. É comum, porém não é o correto e tão pouco o justo. Negro trabalhar com imagem é no mínimo desafiador, é como entrar em uma mata para abrir novos caminhos, porém, com poucas ferramentas para auxiliar.

O que me assusta todos os dias é ter consciência que apesar de todo desenvolvimento tecnológico já alcançado pelos humanos, ainda há a necessidade de voltar a mentalidade brasileira para discutir questões raciais, porque a sociedade não acompanha tal evolução.

Se desenvolve várias teorias e estudos sobre o mundo, mas me assusta a insistência em ficarem “parados no tempo”, cultivando teorias retrogradas que cor da pele difere indivíduos e diminui capacidades intelectuais. Me espanta mais ainda, a falta de capacidade de ter a consciência que isso é fato e que este é um país onde a igualdade é somente constitucional, e o preconceito está enraizado nas relações sociais, sendo esse fator determinante para a aceitação do negro nos espaços.

Acredito que há um problema bem relevante na realidade do nosso país, que é a ideologia não permitir afirmações de pertencimento em lugares de poder social. Talvez, por esse motivo muitos negros não se sentem representados em espaços onde a imagem é significativa, como a televisão, propagandas e cargos de liderança.

Segundo uma pesquisa realizada pela Ethos (Organização que estimula negócios socialmente sustentáveis), mais de 55% dos brasileiros são afrodescendentes, mas apenas 4,7% ocupam cargos executivos.

O mercado de trabalho é sacrificante para o negro. Quando se fala na folclórica meritocracia, além de se levar em conta os privilégios, tem que levar em conta quem hoje está nos cargos de liderança, quem está no comando das contratações. Sendo assim, nós negros temos que torcer para que o recrutador seja uma pessoa livre de pré-conceitos, sejam eles conscientes ou inconscientes, sim, porque o preconceito também se apresenta inconscientemente.

Outros dados divulgados pela Ethos, relata que com o ritmo atual de inclusão as empresas levarão 150 anos para igualar o número de negros em seus quadros a proporção de afrodescendentes no país.

Diante desses dados, eu tenho sempre que torcer para ter a sorte de me deparar com recrutadores que não ache que um Black Power vai interferir no trabalho que vou executar. Terei que contar com a sorte de me deparar com alguém que não pense que a minha estética não combina com a imagem da empresa.

O quanto a gente tem que se reafirmar todo dia para não deixar a peteca cair. A gente tem que se convencer que realmente vale a pena ser quem somos e não tentar nos encaixar nas produções em massa, nas progressivas, em teorias de branquitude, quanto isso nos gera uma insegurança. O quanto custa psicologicamente ser negro no Brasil?

Quando tenho uma entrevista de emprego repito incansavelmente para mim que sou capaz, sou capacitada, porque mesmo que o entrevistador não me considere minha imagem ou habilidades apropriadas para o cargo, eu não posso me deixar abater e desacreditar em mim. Essa é uma missão de resistência, pois ser negro é sempre provar que é capaz, é provar que é muito capaz, é provar que é muito melhor e só então convencer os outros. É resistir todo dia, é resistir toda hora, é resistir em cada respiração.

*A autora é responsável pelo conteúdo deste artigo

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Monique Evelle

Idealizadora do Desabafo Social

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