O questionamento da bixa preta gorda

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Por Gabriel Leal

Desde pequeno a socialização é certa. Você não pode mostrar nenhum traço que lembre ou remeta ao gênero oposto ou identidade oposta. Meninos não pode brincar/usar/usufruir coisas ditas de meninas e vice-versa. É bem claro. Não tem nada de suave, nada de subentendido. Para essa construção heteronormativa, misógina, LGBfóbica e transfóbica é isso e ponto.

O intuito sempre será fazer com que essa criança não seja O viado ou A sapatão. Coloco em caixa alta os artigos, porque, mais tarde o discurso passa a ser outro. Você pode até ser, contanto que não demostre. Não aja. Não diga. Não sinta. Não sinalize. Não se mexa. Não se relacione. Não viva.

Os anos vão passando e todo seu desenvolvimento é baseado na imagem.  Todas as ações deverão passar por um crivo até chegar a suposta aprovação da sociedade, dos familiares, dos amigos e sua – nessa lógica você será a última pessoa que deverá agradar. Alguns conseguem – felizmente – romper com isso, mas outros (muitos, inclusive) não. E aí?

As relações danosas são postas com tom de culpa. Você é culpado por ser quem é. Você não se esforçou o tanto que deveria. Você não fez o que deveria. Você. Você. Certo, e aí?

Além disso tudo, outros demarcadores interseccionados atravessam nossa vivência trazendo à tona discriminações e estruturas que complicam cada vez mais a existência.  A corporeidade precisa ter uma meta. A performance precisa ser específica. Gosto musical. Gosto alimentício. Gostos. Ações. Fazeres. Tudo.

Por isso, com essas construções de culpabilizações, vem a grande questão: De qual doença estamos falando mesmo?

Quando se é bixa, preta e gorda o questionamento se amplia. Todos acham que você, por ser gorda, é obesa. Doente! Por ser bixa afeminada ou com alguns resquícios disso. Doente! Fora das normas impostas? Doente! Questionou? Doente! Se apaixonou pelo mesmo gênero? Doente! Não se identifica com o gênero atribuído? Aberração! Mas, afinal, o que eu tenho de saúde? O que vocês me deixam de saúde?

Para adentrar esse questionamento, vamos entender a definição de saúde. Dentro do que é proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS) – saúde é um estado de COMPLETO BEM-ESTAR físico, mental, social, espiritual e não somente a ausência de doença.

Pela definição acho que ninguém cabe na saúde. Todos e todas são doentes afinal? Completo bem-estar? Completo? Com toda estrutura que extermina povos, violenta gêneros, marginaliza sujeitos e discrimina qualquer coisa que fuja de um suposto “normal”, acho que seria impossível ter saúde. Porém, esse não é a questão da vez. Só deixei a título de reflexão. Voltemos ao recorte do texto: Afinal, qual é a saúde?

Sabemos, por exemplo, que afetividade – que podemos colocar como saúde no aspecto mental e social – por ser um termo genérico que agrega várias vivências afetivas, como o humor, emoções e sentimentos, nunca será universal, ou seja, não tem parâmetro para definir o saudável e doente. Cada sujeito possui uma forma única, seja ela/ele/elx LGBT ou não. Isso está relacionado a forma como estamos postos e nos relacionamos no mundo.

Se falarmos da saúde física, eu fico ainda mais intrigado, porque temos dados como o do Ministério da Saúde (2014 – Violência Homofóbica no Brasil/SDH) em que 68 mil mulheres, entre 10 e 60 anos ou mais, sofrem violências interpessoais. Nesse estudo estão inseridas as mulheres lésbicas e bissexuais que, além das violências que afetam todas as mulheres, também são alvos de violências motivadas pela lesbofobia e bifobia. Só para reafirmar: LESBOFOBIA e BIFOBIA. Esses são exemplos mínimos, porque ainda temos indicies alarmantes de transfeminicidio, lgbfobia, feminicidio e deracismo.

Ainda tem um último ponto na definição de saúde, o espiritual. Esse com certeza passa longe. Casos recorrentes de terreiros sendo invadidos, despedaçados, desmoralizados enfatizam que o povo majoritariamente preto e LGBT que são de religiões de matriz africana não são respeitados. São demoníacos, são doentes, são aberrações. Está difícil, né? Mas vamos lá!

Com isso tudo eu tenho que concordar: Estamos doentes! Mas não pelo fato da nossa orientação afetivo-sexual, nem pela nossa identidade de gênero, nem por nossa cor, nem por nosso gênero, nem por nosso corpo, nem por nossa ancestralidade, nem por nossa religião. Estamos doentes por toda estrutura que vocês criam e sustentam. Por todas as vezes que viramos piadas, somos violados/as, violentadas/os, machucadas/os, maltratada/os, expulsas/os, expostas/os e MORTAS/OS. Estamos doentes por conta desse projeto político exterminador.

Precisamos curar! Curar nossas bixas, lésbicas, travestis, transexuais, mulheres, o povo preto, o povo de terreiro de toda essa sociedade que adoece. Precisamos falar sobre saúde! Saúde que entenda todas essas dinâmicas: Físicas, mentais, sociais e espirituais. É urgente!

*O autor é responsável pelo conteúdo deste artigo

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Monique Evelle

Idealizadora do Desabafo Social

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