APADRINHAMENTO A TROCO DE QUE?

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Imagem: AFRONTA

Por: Gabriel Leal


O problema não está em Valois, Holiday, Eronildes. A problemática está na estrutura racista e os mecanismos que incorporam as pautas dos movimentos, transformando as vítimas em seus próprios algozes.
Imagem ilustrativa

Recentemente tivemos o depoimento extremamente equivocado de Luislinda Valois (para sermos condizentes com uma pessoa que também sofre pelos processos que estruturam essa sociedade: O racismo e o machismo) que convoca todas e todos nós a pensarmos nossas táticas de enfrentamento.

Para quem não acompanhou, Luislinda Valois participou de um evento no Palácio do Planalto para sancionar alguns direitos as mulheres. Neste espaço, Valois fala que Michel Temer seria “Padrinho das Mulheres Negras Brasileiras”.

Partindo disso, questionamos: De quais mulheres negras a senhora está falando, Sra. Ministra? As mesmas que tiveram o índice de homicídio aumentados em 54% nos últimos 10 anos? As mesmas que são 59,4% dos registros de violência doméstica? As mesmas que, segundo o dossiê mulher 2015, são 56,8% das vítimas dos estupros registrados no Estado em 2014? A quem serve esse discurso? Com qual intuito ele foi feito?

A narrativa dessas falas são construídas por dois pontos perigosos. Identidade e representatividade, que se tornaram pauta dos movimentos negros e a luta anti-racista, pela constante luta de ocupação das pessoas negras/pretas nos espaços de poder para efetivar as políticas publicas e assegurar os direitos. Mas, por pior que pareça, não é a primeira e não será a última que eventos como esse ocorrerão. Eronildes Carvalho (Tia Eron), por exemplo, já havia feito declarações semelhantes, ao afirmar que representava mulheres negras e nordestinas.

A falta de pessoas negras nas esferas de poder é mais uma faceta do racismo, isso sabemos. Mas quando conseguimos que uma pessoa negra ocupe, o que esperamos e como dialogamos com a pessoa que está ocupando?

A primeira pergunta respondemos rapidamente. Seguridade social, financiamento adequado para a saúde, assistência, educação, moradia, modificação da política de drogas, segurança pública. São inúmeras as coisas. Contudo, o problema não está aí, porque sabemos o que nos falta. Estudamos, pesquisamos, sentimos todos os danos e temos propostas para minimiza-los. Os problemas são: O diálogo e quem está ocupando.

As pessoas negras que ocupam esses espaços, precisaram do aval de alguém para ocupar. E esse aval passa pelo discurso que tem potência, e mais importante: poder, ou seja, o aval racista. Não é a narrativa que comunga com todas as coisas que de fato a população negra precisa que tem esse espaço garantido. E é importante ter ciência disso para seguir nas propostas de enfrentamento. Eles/Elas estão lá e devem ser questionados(as), assim como qualquer político branco – que tem seus posicionamentos respeitados.

Precisamos entender que o problema não é individual de Valois. Ela não representa politicamente todas mulheres negras, como diz representar, e nem os homens negros, mas sofre com o racismo e machismo que toda mulher negra sofre (em suas especificidades), porque sua posição política não a blinda do racismo.

Por isso, sigamos nas propostas de enfrentamento a toda narrativa racista que tenta exterminar as vozes que clamam por equidade. Valois é apenas uma capa na tentativa de blindar os verdadeiros algozes.

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