MULHERES EM LUTA: #SOMOSMUITAS

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Por: Pía Bava

Que o passado 8 de março não passou despercebido não é nenhuma novidade. Poderia se dizer que foi uma das mobilizações pelo Dia Internacional da Mulher mais multitudinárias que o mundo já presenciou. Poderia se dizer, inclusive, que foi, provavelmente, a manifestação mais midiatizada que essa data já recebeu. Em mais de 50 países, milhares de mulheres e homens saíram às ruas para denunciar as profundas desigualdades que acabam com as vidas e dignidades das mulheres e que persistem em se ancorar nas sociedades do mundo todo. Mas o que é que acontece a nível institucional quanto a esse assunto? Que tipo de apoio as mulheres recebem das altas esferas governamentais para combater tais desigualdades, que parecem incomodar e mobilizar a cada vez mais e mais pessoas?

Uma excelente notícia começou a percorrer o mundo nesses dias. O Governo da Islândia acabou de aprovar uma reforma legislativa que determina que as empresas deverão demonstrar que não praticam discriminação de gênero pagando às mulheres salários mais baixos do que aos homens pelo mesmo trabalho. Segundo o portal espanhol de economia elEconomista.es, essa reforma só começará a vigorar em 2020, mas o governo pretende eliminar a brecha salarial existente até 2022. As empresas que contarem com mais de 25 funcionários deverão certificar à Administração, em suas contas anuais, que seus funcionários e funcionárias recebem o mesmo salário se desempenharem o mesmo cargo. A lei inclusive afetará a diferença salarial existente no país por motivo de etnia ou nacionalidade. Como isso conforma uma excelente notícia para nós, aqui, tão longe dessa realidade? Se uma consequência positiva a globalização tem é que o avanço social de lugares remotos como a Islândia, de onde jamais ouvimos falar, pode servir como modelo e incentivar promotores progressistas das bandas de cá.

Contudo, a realidade está longe de apresentar esperanças de que mudanças como essa irão acontecer por aqui no curto prazo. Para contrastar o exemplo islandês, nada mais apropriado do que lembrar os desacertados comentários do atual presidente do Brasil, Michel Temer, durante a Cerimônia de Comemoração pelo Dia Internacional da Mulher, na qual sua esposa, Marcela Temer, falou durante menos de dois minutos. Em todo momento, o discurso do presidente versa superficialmente sobre os avanços recentes da mulher em matéria de ocupação de espaços, sobre a relevância da data em questão, sobre a importância da luta da mulher no Brasil e no mundo, etc. Porém, na hora de abordar assuntos específicos, a fala de Temer vai de encontro com tudo isso.

 “Eu tenho absoluta convicção, até por formação familiar, por estar ao lado da Marcela, o quanto a mulher faz pela casa, o quanto faz pelo lar, o que faz pelos filhos. E, portanto, se a sociedade, de alguma maneira vai bem, quando os filhos crescem, é porque tiveram uma adequada educação e formação em suas casas. E, seguramente, isto quem faz não é homem, quem faz é a mulher”. O estudo Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, que faz parte de um projeto realizado desde 2004 pelo Ipea em parceria com a ONU Mulheres, destaca que mais de 90% das mulheres declararam realizar atividades domésticas, enquanto cerca de 50% dos homens é que desempenha tais atividades. Embora essa fala do presidente retrate uma realidade inegável, em momento nenhum ele se posicionou no sentido de dizer que se trata de uma situação que precisa mudar. Muito pelo contrário. Poderia se interpretar com facilidade que seu objetivo foi afirmar que, se a sociedade pretende avançar, ela precisa manter essa desigualdade de divisão das tarefas domésticas do jeito que está. Se quisermos contar com “bons filhos” para conduzir nosso país, devemos deixar que as mulheres os criem, pois o homem não está capacitado para fazê-lo com sucesso. Entrelinhas, essa pareceria ter sido a intenção desse trecho do discurso. E para reforçar tal intenção, Temer fez referência à capacidade da mulher para a economia. O problema é que ele restringiu o papel da mulher apenas à economia doméstica, como se essa fosse sua única habilidade no que diz respeito à gestão de contas. “Na economia, também, a mulher tem uma grande participação. Ninguém mais é capaz de indicar os desajustes, por exemplo, de preços em supermercados do que a mulher. Ninguém é capaz de detectar as eventuais flutuações econômicas do que a mulher, pelo orçamento doméstico maior ou menor”. Será que a mulher não tem outra forma de enxergar desajustes e flutuações econômicas que não seja no supermercado? Ou será que o chefe do estado brasileiro não tem interesse algum em que ela ocupe espaços de determinação, poder e liderança nas questões relativas ao dinheiro, um item historicamente delegado ao homem como o único com as faculdades necessárias para lidar com ele?

Tão perigoso quanto afirmar situações reais de desigualdade sem pretender combatê-las é afirmar situações de igualdade que não são reais: “Hoje, homens e mulheres são igualmente empregados. Com algumas restrições ainda, mas a gente vê, em algumas reportagens, das mais variadas, como a mulher hoje ocupa um espaço executivo de grande relevância. O número de mulheres que comandam empresas, que comandam diretorias, é imenso”, assegurou Michel Temer. Segundo o estudo Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, a taxa de participação feminina (mulheres entre 16 e 59 anos trabalhando ou à procura de um emprego) entre 1995 e 2015 foi de aproximadamente 55%, o que significa que quase metade das brasileiras em idade ativa está fora do mercado de trabalho. No entanto, o percentual masculino nesse aspecto chegou a 85%. O estudo também mostra que, em 2015, a taxa de desocupação feminina era de 11,6%, enquanto a dos homens foi de 7,8%. Além de o discurso do presidente discordar substancialmente dos dados empíricos, a importância dada à mulher em posições de “comando” é claramente visível no seu próprio gabinete: nenhuma. É paradoxal ouvir da boca de um presidente que “a mulher ocupa um espaço executivo de grande relevância”, quando ele fez questão de eliminar toda e qualquer participação feminina do seu corpo ministerial.

O discurso de Michel Temer rendeu várias críticas negativas, até na impressa internacional. Veículos como El País, da Espanha, The New York Times, dos Estados Unidos, The Telegraph, da Inglaterra, entre outros, detectaram e destacaram o sexismo e o machismo impregnado na fala do presidente.

Apesar do clima de constante resignação popular provocado pelas ações das altas esferas do governo, fatos como esse não podem passar batidos. E isso é muito fácil de se perceber quando nos deparamos com reações de indivíduos, dentre os quais muitas mulheres, que não enxergam conteúdo discriminatório em discursos como o aqui exposto. Muito já se falou, se escreveu e se publicou sobre este assunto, mas poucas iniciativas explicam de forma explícita onde é que a discriminação pode estar presente, de acordo com determinados pontos de vista. E, nesse sentido, muito ainda poderia ser falado, provavelmente. É importante não ignorarmos o fato de que a nossa construção social é tão dominante que, muitas vezes, as próprias pessoas que estão sendo discriminadas não conseguem vê-lo. E é muito importante, por esse mesmo motivo, esclarecer pontualmente as instâncias em que alguém, entrelinhas, pode estar querendo nos diminuir, pode estar querendo reproduzir esquemas de submissão e opressão, pode estar querendo perpetuar seus privilégios de longa data.

Muitas vezes não acontece; normalmente é muito difícil; mas, às vezes, as pessoas se deparam com um evento determinado, um momento X nas suas vidas em que começaram a enxergar as coisas de outra forma, a ter outras possibilidades a serem consideradas. E é essencial aproveitarmos todas as oportunidades que temos para fazer com que isso aconteça: para abrir nosso leque de percepções e tentar aumentar o dos outros.

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