Mulheres trans e travestis negras: (IN)visibilidade

ago 09, 2016
Gabriel Leal
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Fonte: Kbela

Por: Bruno Patrocinio

No contexto social nacional é inegável a interligação social maldosa entre o corpo feminino como objeto de prazer. Todavia, esse fato é exacerbado quando se fala em mulheres negras e consegue se tornar ainda pior quando leva-se em conta o corpo da mulher negra e trans. Criou-se um mito social de que as mulheres trans estão sempre conectadas a vida da prostituição negando-se e fechando-se as portas para elas em demais instituições ou áreas sociais. A verdade é que mulheres trans são vistas pela sociedade como pedaços de carne promíscuos e levianos. A sociedade costurou essa premissa e quer obriga a mulheres trans a carregá-las a qualquer custo.

Maria Clara dos Anjos, uma mulher trans negra de 19 anos estudante da Universidade do Recife, abordou numa entrevista sobre a fetichização do corpo da mulher trans: “tanto mulheres negras cis-gênero quanto mulheres negras trans, sofrem esse problema da fetichização e erotização do corpo. Na verdade, toda mulher tem seu corpo vendido na grande mídia, o nosso corpo, no entanto é mais endossado nessa questão, seja sendo a mulata ou a travesti que normalmente é a prostituta. Isso tudo é muito complicado porque as pessoas nunca se perguntam porque essas meninas trans ou travestis estão naquela rua ou porque elas apenas tiveram aquela rua como possibilidade de vida, né? Esse porque, foi o que fez com que nós ganhássemos esse status de figuras da noite que estão ali apenas para satisfazer essa grande massa masculina. Então, pra mim sou apenas eu, uma jovem de 19 anos indo na praça conversar com meus amigos o que me faz pensar que apenas o fato de existir enquanto mulher trans é algo muito grande. Eu entrar na universidade, eu ter um relacionamento, eu ter uma conversa com minha mãe, isso são coisas que na vida de outra pessoa são coisas comuns, mas na minha vivência de mulher trans isso não é algo comum, é uma vitória”. 1

Essa naturalização da fetichização do corpo da mulher trans negra é tão evidente que basta digitar no Google, maior site de pesquisa mundial da atualidade, ‘mulher trans negra’ que boa parte dos resultados da pesquisa em vídeo vão te direcionar a vídeos pornôs.

O pior de tudo é que existe um silêncio doloroso na mídia, nas instituições de ensino e de amparo a indivíduos quanto a situação das mulheres trans. Simplesmente não é falado, são mínimas as iniciativas de apoio e amparo para a questão de vida das mulheres trans. É como se elas fossem inexistentes mesmo estando presente à luz do dia.

Mais um fato que é bastante silenciado é a tortura que as mulheres trans sofrem na prisão, sendo que boa parte das mulheres trans que são presas são negras. Além do fato das mesmas serem encaminhadas para presídios masculinos, ferindo a sua identidade de gênero, são estupradas rotineiramente e têm seus cabelos cortados antes de entrar nas prisões.  As mulheres trans são pessoas que estão mais vulneráveis dentre todos aqueles que já são vulneráveis nesses ambientes. 2

Uma forma de se aprofundar os direitos para as mulheres trans é por meio de uma orientação específica para que delegacias, juizados de família e outros órgãos de proteção às mulheres entendam a violência contra transexuais como crime de gênero, como afirma Chopelly Glaudystton do CNDM (Conselho Nacional dos Direitos da Mulher). O melhor a se fazer, portanto, é potencializar e cobrar dos serviços e dispositivos o cumprimento da Lei Maria da Penha aplicada às mulheres trans, visto que agora o Conselho Nascional de Procuradores-Gerais decidiu que todas as promotorias do país podem aplicar a Lei Maria da Penha em casos de agressões a travestis e transexuais. Afinal, mulheres trans são socialmente e legalmente mulheres. Faz-se urgente reconhecer a mulher trans assumindo o papel de mulher na sociedade e isso ainda hoje é um grande desafio.3

Referências

1 http://nobrasil.co/transexual-maria-clara-araujo-nos-representa-dia-internacional-da-mulher/

http://www.geledes.org.br/maria-clara-de-sena-transexual-de-pe-e-a-1a-do-mundo-a-atuar-no-combate-a-tortura-em-prisoes/

http://www.spm.gov.br/4cnpm/noticias/201clei-maria-da-penha-precisa-proteger-mulheres-transexuais201d-defende-conselheira

4 http://www.guiagaysaopaulo.com.br/1/n–lei-maria-da-penha-passa-a-valer-para-trans-e-travestis-em-todo-o-brasil–02-08-2016–2977.htm

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