Movimento Escola Sem Partido: O quanto retrocederemos?

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Por: Bruno Patrocinio

No cenário brasileiro é nítida a situação frágil que a educação pública se encontra. Segundo dados do IBGE, até o ano de 2010 quase metade da população com 25 anos ou mais não tinha o ensino fundamental completo – além disso, registra-se um baixo nível de aprendizagem nas escolas do nosso país. Mesmo com problemas tão agravantes e seculares, nos últimos tempos, quem vem ganhando uma intensa visibilidade é o movimento Escola Sem Partido. Para o movimento o problema da educação pública no país consiste no fato da maior parte dos professores doutrinarem e não ensinarem. Sendo assim, para este grupo, a maior parte dos professores impõem aos seus alunos uma doutrina (seja ela política, religiosa ou de outra esfera) com a intenção de ganhar a adesão destes.

Ainda de acordo com o movimento escola sem partido, a discussão de questões de gênero e sexualidade por professores em sala de aula também devem ser coibidos. Isto porque as famílias que devem escolher as ideias que as crianças devem ter contato na escola.  O movimento aposta na abertura de processos aos professores que tentarem levar para sala de aula as discussões consideradas doutrinárias, ou seja, o movimento defende a judicialização das escolas.

O movimento Escola Sem Partido parece querer aniquilar com a frágil e tímida multiculturalidade de ensino presente nas escolas do país. Utilizando como argumento a luta contra a doutrinação, o movimento transforma o corpo de professores no principal culpado pela decadência do ensino nacional. Em escolas que faltam merendas, livros didáticos, acesso à internet, materiais didáticos diversificados, onde falta estrutura, incentivos ao esporte e inclusive onde faltam professores, a doutrinação é só poeira microscópica. Não que a doutrinação não seja um problema, mas visto a lista de problemas urgentes parece algo que precisa ser discutido num momento posterior e de outra forma.

Sob a ótica do movimento Escola Sem Partido parece que os professores formam uma tropa de militantes subversivos preparados para dispararem ideologias em suas aulas e que precisam ser urgentemente detidos pelo poder judiciário. Além disso, parece que os alunos não são questionadores e estão super dispostos a aceitar todo tipo de ideia propagada em sala de aula. Isto não tem lógica. Os alunos costumam ser questionadores e por mais que haja uma tentativa do professor de impor uma ideologia haverá resistência em aceita-las, até porque os estudantes também convivem com as ideologias da sua família, dos cursos que fazem fora da escola, da igreja que podem vir a frequentar ou mesmo as ideologias presentes nas redes sociais. O ambiente escolar deve ser um mundo de pluralidade, deve permite a entrada e a discussão das mais variadas ideias, então tentar proibir discussões de gênero e sexualidade nos ambientes escolares parece no mínimo uma atitude tirana.

O que parece ser difícil de entender é que o papel principal na área educacional é do aluno. Os alunos, na maior parte das vezes, não são incluídos nas decisões que visam melhorar o ensino no país. Os estudantes devem ser consultados sobre o que precisa ser mudado urgentemente na esfera educacional do país. Quem melhor para opinar a não ser quem os vivencia? Os estudantes volta e meia bradam sobre os problemas que vivenciam em suas escolas e o Estado na maior parte das vezes tenta apenas minimizar a situação. Os alunos já mostraram o quanto são questionadores e poderosos podendo citar como exemplos, as manifestações de 2013 que surgiram por força dos estudantes que lutavam contra o aumento da passagem de ônibus e mais recentemente a onda de ocupações escolares em São Paulo visando obter um posicionamento do Governo em relação a destinação da verba da merenda e contra a reorganização escolar que o Governo do Estado visava implementar. Na verdade, a elaboração da Escola Sem Partido parece ser uma forma de tornar os alunos mais doutrinados, menos questionadores e mais propensos a não se manifestarem e aceitarem tranquilamente os papeis secundários. A Escola Sem Partido é uma tentativa de tomar o papel de protagonista dos alunos e colocá-lo sob a jurisdição do Estado.

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