Capitão do Mato na Casa Grande

abr 23, 2016
Gabriel Leal
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17/04/2016- Brasília- DF, Brasil- Sessão especial para votação do parecer do dep. Jovair Arantes (PTB-GO), aprovado em comissão especial, que recomenda a abertura do processo de impeachment da presidente da República. Na foto,  Foto: Antonio Augusto/ Câmara dos Deputados

17/04/2016- Brasília- DF, Brasil- Sessão especial para votação do parecer do dep. Jovair Arantes (PTB-GO), aprovado em comissão especial, que recomenda a abertura do processo de impeachment da presidente da República. Na foto,
Foto: Antonio Augusto/ Câmara dos Deputados

Icaro Santana**

No último Domingo, 17 de abril, aconteceu a votação na câmara de deputados federais para decidir a abertura do pedido de impeachment da nossa presidenta Dilma Rousseff.

Nessa votação nós conhecemos os 511 deputados que trabalham no nosso legislativo, suas contradições e suas posições perante a população. Dentre eles, poucos foram eleitos por voto direto, na grande maioria, foram eleitos por conta da legenda partidária, diante disso nos faz perceber a importância da reforma política. Mais da metade dos deputados já foram citados judicialmente, fazendo entrar em contradição o argumento de que o impeachment é para acabar com a corrupção. Além disso, quase não há representatividade naquele recinto, há poucos negros, poucas mulheres, poucos LGBTTIs. Homens brancos e ricos decidindo o futuro de um país diverso, uma bancada religiosa que justificava o voto em nome da família tradicional brasileira, em nome de Deus e esquecendo a laicidade do nosso país, diversos discursos machistas contra a nossa presidenta Dilma e a homenagem feita pelo deputado Jair Bolsonaro a um dos torturadores da ditadura militar, fez com que a votação virasse um circo no qual os deputados eram os diretores e nós os palhaços assistindo aquilo.

Nesse texto, eu não busco entrar em discussão se o impeachment da presidenta Dilma é válido ou não -mesmo tendo a minha concepção de que é um golpe- mas demonstrar a falta de representatividade que nós negros temos.

Negros representam 54% da população do nosso país, na câmara de deputados apenas 20% são pessoas autodeclaradas negras e muitos desses negros que estavam na câmara de deputados votaram “sim” ao impeachment gerando diversas manifestações contra esses deputados. Muitas das pessoas que se manifestaram contra o voto desses deputados são negros e negras, que percebendo os avanços do governo Lula e Dilma, se sentiram traídos pelos negros que votaram a favor da abertura do impeachment.

foto-tia-eron1Tia Eron, deputada do PRB-BA, disse, votando sim para o impeachment, que ela era “a voz da mulher negra e da mulher nordestina, que não quer mais a migalha do governo federal porque tem dignidade para trabalhar e para vencer”, gerando diversas discussões nas redes sociais da deputada, por conta dos sentidos que essa frase influencia nos tempos atuais. A palavra migalha, usada contra os negros pelos brancos que não acreditam na reparação história que nós negros merecemos, foi muito utilizada durante as discussões sobre as cotas raciais durante o governo de Dilma, do qual muitos diziam que as cotas não eram necessárias e que os negros não precisavam de “migalhas”. Diante disso, há um problema sério no discurso de Tia Eron que é a defesa da meritocracia enraizada na sociedade brasileira, colocando todos os negros, que na grande maioria é pobre, como responsável pela sua pobreza, e que se ela conseguiu chegar a ser deputada, todos possuem condições para tal, mesmo que a deputada tenha comemorado quando as políticas de cotas raciais foram aprovadas.

Além disso, a deputada é envolvida em diversas contradições. Ela tem projeto que tipifica o crime de injuria racial (projeto de 1749/2015), mas votou a favor da redução da maioridade penal, mesmo sabendo que implicaria em mais jovens negros presos, mediante essa sociedade racista. Além de estar coligada a políticos brancos e classistas como Eduardo Cunha e ACM Neto.

Muitos negros e negras, nordestinos e nordestinas começaram a comentar nas redes sociais que a deputada não os representavam e a apelidaram de capitã do mato por conta da sua defesa das políticas dos brancos e o uso por conveniência do discurso dos negros no momento que nós negros precisávamos do seu apoio.

Um dos comentários polêmicos no facebook de Tia Eron foi o comentário de um homem brando do qual ele dizia “Você é negra, porém bonita e inteligente. Votou como verdadeira patriota, pelo impeachment da Dilma”. O que nos remete a várias problematizações sobre a tolerância da opinião do negro que agrada a brancos. Muitas pessoas estão com raiva da deputada por não se sentir representada, entretanto o sentimento que tenho atualmente é pena. Pena por ver um de nós se vendendo por dinheiro e míseros aplausos de brancos.

**Icaro Santana

Estudante do Bacharelado Interdisciplinar de humanidades-UFBA

http://icarojss.wix.com/icarosantana

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