O necessário protagonismo feminino dentro do movimento feminista

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 LinkedIn 0 Filament.io 0 Flares ×

scaled_blackpanthers_groupshot_cinese

Por:  Caroline Musskopf

O movimento feminista não é excludente, pois suas causas abrigam todos aqueles que as acham justas. “Querer-se livre é também querer livres os outros”, já dizia Simone de Beauvoir. É essa empatia que se faz necessária e que precisa estar vigente dentro do movimento. O se colocar no lugar do outro constantemente. Entretanto, é preciso ter sempre em mente que esse movimento só começou pela necessidade das mulheres de começarem a ser protagonistas das suas próprias vidas, e também de exercerem esse papel de evidência perante à sociedade, em um contexto onde ele parecia impossível. Então, se o foco do feminismo sempre foi as mulheres, é papel delas o desenvolvimento das estratégias políticas, das pautas, das manifestações e das reivindicações.

Isso não implica na passividade dos homens em relação às nossas causas. Quer apenas dizer que eles são nossos aliados e nunca os protagonistas desse âmbito. Afinal, é a partir dos privilégios lhes dados de antemão e dos seus contextos próprios que os homens precisam pensar em qual será a sua contribuição para uma sociedade sem machismo.

O que acontece, e não podemos ignorar, é que muitos homens entram nesses espaços para conhecer mulheres. Como quem vai em uma festa e fala apenas o que acredita que a outra pessoa deseja ouvir. Ou mesmo aqueles que realmente leem sobre o assunto e tentam participar genuinamente, mas, no final das contas, quando estão na roda de amigos, compartilham dos mesmos comentários machistas proferidos pelos outros. Ou quando uma menina lhe diz “não”, tenta forçar a barra. Afinal, ela só está se fazendo de difícil.

Já aos que estão de fato engajados na (re)construção da sociedade nesse sentido, utilizem os espaços do seu dia a dia, as pessoas que o cercam. Criem seus espaços próprios de desconstrução.

Muitos espaços feministas nas redes sociais não aceitam a entrada de homens. Isso chega a ser considerado excludente? Definitivamente não. Esse posicionamento por parte das mulheres possibilita que relatos de abusos sejam compartilhados com maior segurança, sinceridade e com um medo menor de julgamentos alheios. O movimento feminista é um espaço das mulheres e elas precisam se sentir confiantes dentro dos seus próprios espaços.

Luiza Meira, de 22 anos, ativa no movimento feminista desde 2012, colaboradora do Coletivo MARIA, da PUCRS, do Movimento de Mulheres Olga Benario, do Coletivo de Mulheres, da Famecos, e do Manas de Esteio, se posicionou ao Desabafo em relação ao tema abordado:

“Eu sou contra. Pra mim o movimento deve conter apenas  mulheres, já que, por mais que homens estudem, leiam, etc., eles nunca vão ter a vivência de uma mulher pra saber construir. O que acontece, quando homens são aceitos, é a retirada do protagonismo da mulher pra que ela seja dada a um homem que não consegue se pôr no lugar dela. As pautas mais urgentes, como a questão da violência contra a mulher e do aborto são invisibilizadas em prol de um discurso machista e muito problemático como a liberdade sexual. O feminismo luta pra que as mulheres se empoderem coletivamente, e isso passa também pelo esforço de “tirar os homens do centro”. Chega a ser ofensivo que se pense que mulheres não podem se organizar sozinhas, sem a presença homens. Claro, homens devem se desconstruir, devem ouvir mulheres e darem espaço pra elas falarem, mas o trabalho é entre eles.”

Quanto ao termo “pró-feminista”, utilizado muitas vezes para se referir aos homens engajados com o movimento, Luiza ainda afirma:

“Me soa meio errado. Eu, branca, não me denomino pró-movimento negro, apesar de ser totalmente a favor dessas pautas. Dá sim pra se desconstruir sem que se rotule de qualquer coisa. Mas, no final, soa melhor que dizerem que são feministas.”

Em palavras gerais, o feminismo é vivido dentro das nossas situações cotidianas e não apenas nos espaços que se intitulam como partes do movimento feminista. Nesse sentido é que qualquer pessoa pode e deve ser “pró-feminista”. Não passando adiante ações e discursos misóginos e machistas e nem deixando com que esse tipo de coisa passe despercebida. Mas o protagonismo (nas ações e nas decisões do movimento)? Esse é nosso! Ele já nos foi tirado por tempo demais para que o cedamos novamente.

Comentários

Comentários

Faça parte da nossa rede!

Fique por dentro que tudo que fazemos nos seguindo nas redes sociais!

   

Powered by WordPress Popup