O mito da meritocracia

nov 05, 2015
Gabriel Leal
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Por Ana Paula Huoya

meritocraciaDentre as mais diversas lendas urbanas, paira a lenda da meritocracia. Com reportagens sobre histórias de superação da pobreza através do esforço, estudo e mérito, somos bombardeados diariamente e, dessa forma, parece bem fácil acreditar que se colhe o que se planta. Parece óbvio que basta estudar muito e se esforçar para que as desigualdades se superem. Será que não estamos tentando o suficiente?

Na verdade, as histórias de meritocracia, tão vendidas como majoritárias, são exceções. Em um país em que 77% das mortes por homicídios são ocupadas pela população negra, em um país em que as mulheres ganham 30% a menos que os homens, em um país em que a educação básica é precária não é possível conceber igualdade de condições, portanto, impossível que a ascensão por mérito seja regra. Essa ideia de mérito é inspirada na ideia do American Dream (O sonho americano). Isso significa um mundo de oportunidades que podem ser agarradas, dependendo somente de onde o mérito pode nos levar. O mérito é moral, caráter e trabalho duro. Esse sistema apareceu fortemente no Brasil na Ditadura do Estado Novo com a imagem do brasileiro trabalhador, que alcançaria a modernidade pelo mérito.

Infelizmente é na distribuição e na valorização dos empregos que está uma das dificuldades da ascensão por mérito. Primeiramente, somos um país que aboliu a escravidão muito tarde e, além disso, não garantimos uma vida pós-escravidão com igualdade de oportunidades. Afinal, quem já possuía dinheiro e terras, continuou com suas propriedades e os ex-escravos retornaram ao trabalho através de um sub-emprego. Essa é uma lógica que se segue até hoje. Boa parte da população negra e pobre, com o tardio acesso à Universidade, continua ocupando os empregos mais desvalorizados, a exemplo da mulher negra, antes escrava da casa, hoje empregada doméstica com direitos trabalhistas recém-adquiridos (e nem todos efetivados). As reverberações da heranças da escravidão no Brasil mostram, diariamente, que não é possível que o mérito, sozinho, faça todas as pessoas alcançarem as oportunidades de forma igual.

No mais, poderia também tratar de toda uma situação de machismo que existe mundialmente e que não permite a mulher, até hoje, acessar os mesmos espaços e ter o mesmo salário do que os homens, impedindo, mais uma vez, a igualdade de oportunidades e, portanto, que a meritocracia, o esforço, o trabalho duro deem conta de reparar desigualdades históricas. Se as mulheres ganham muito menos do que os homens, se as mulheres foram criadas para uma vida privada (cuidar da casa e dos filhos), elas não têm as mesmas oportunidades de ocupar espaços de poder e de representatividade. Essa dificuldade ainda é maior quando se trata da mulher negra que, como já dito, ocupou e ainda ocupa o espaço da empregada doméstica.

Recentemente o reconhecimento dessa situação irreparável tem sido alvo de políticas públicas como é a política de cotas raciais e sociais. Na tentativa de incluir negros e pobres na Universidade, mais espaços serão ocupados, mais vozes serão ouvidas e o Brasil caminhará na construção, mesmo que eterna, de um país que procura equiparar condições.

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