DESVENDANDO A COSMÉTICA SEM LUXO DO “DOMÉSTICAS DE LUXO”

mar 04, 2015
Alline Pereira
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Mesmo já tendo passado alguns dias do final do Carnaval, uma questão tem se mantido na discussão a respeito da discriminação de gênero e de raça na cidade de Juiz de Fora – MG. Tudo isso a partir de um bloco carnavalesco local chamado Domésticas de Luxo.

 Em 1958 surgiu o Domésticas de Luxo, em São Mateus, bairro nobre da cidade de Juiz de Fora. Sua fundação se deu com a união alguns amigos (homens) que pintavam de preto os rostos e se fantasiavam de mulheres negras e domésticas. O bloco define-se como caricato, irreverente e carismático. Durante as décadas de 70 e 90 chegou a ter mais de 800 componentes, e depois de muitos anos sem desfilar o bloco retornou, em 2009, ao Carnaval da cidade.  De acordo com informações disponíveis no portal do bloco, atualmente, os novos dirigentes assumiram um compromisso com a “modernidade” do Carnaval da cidade, gerando muitas mudanças, inovações e contribuindo como instrumento de transformação social e cultural e, em julho de 2010, foi reconhecido pelo Poder Público Municipal como entidade de Utilidade Pública.

O bloco Domésticas desfila durante o carnaval com os participantes tendo os seus rostos pintados de pretos, batom excessivamente vermelho e extrapolando os limites da boca para dar a ideia de lábios grossos, enchimento nas nádegas e roupas de empregadas domésticas. O estereótipo mais raso da negra subalternizada. Durante os seus 58 anos de existência, eles foram poucas vezes questionados em sua postura, e sempre se defenderam com o argumento de estarem homenageando as empregadas domésticas. Entretanto, nos últimos anos, especificamente em 2015, as críticas ao grupo se tornaram mais contundentes. Relevantes espaços digitais de informação, como o G1, BBC-Brasil, Geledés, entre outros, passaram a fazer um questionamento mais assertivo, além de discussões críticas nas redes sociais. A partir de uma postagem publicada na rede social Facebook, várias mulheres negras e ativistas se posicionaram com relação à questão, não só a cerca do Domésticas de Luxo, mas também de outros blocos caricatos que saíram às ruas, nesse carnaval 2015.

 A par destas conquistas e da valorização do negro em uma sociedade extremamente excludente e racista, o bloco foi questionado, na imprensa, a respeito de sua atitude que em nada favorece a imagem da etnia negra e que camufla, preconceituosamente com artimanhas do discurso da “tradição” e da “homenagem” às domésticas. Discriminação e exclusão sociais camuflados sobre a fala da homenagem e da tradição. (vale considerar que muitas vezes reproduzimos estereótipos sem saber, realmente acreditando ser uma homenagem). Esse bloco repudiou, o que chamou, de “mentiras e de alegações falsas e graves”, e alguns defensores alegam que estão confundindo alhos com bugalhos e não existe nada de discriminatório ou racista, mas apenas criatividade, alegria e irreverência.

Pode-se perceber, dessa forma, que ao invés de colocar em discussão e fazer a reflexão das questões que dizem respeito ao universo da etnia negra, especificamente em Juiz de Fora, prefere-se desqualificar qualquer questionamento do status quo, apelando-se para a tradição e o despropósito das críticas, que passam a ser criminalizadas.

É preciso compreender que se é imprescindível a defesa da tradição, senão nos perderíamos num eterno vácuo histórico, é cogente o questionamento das estruturas de poder que se perpetuam no presente, caso contrário, estaremos nos condenando a um mais perigoso vácuo civilizatório. Ao longo de várias décadas os movimentos sociais da cidade daqui lutam árdua e incansavelmente pela valorização da memória dos afrodescendentes.

Jarid Arreas, em artigo para a Revista Fórum, faz uma crítica pouco fundamentada ao que entende como passividade da população juizforana, já que considera revoltante que os habitantes da cidade vejam o bloco como algo natural. Dizemos: Não. Não vemos esse bloco como algo natural! A sociedade de Juiz de Fora possui voz (es)! Talvez seja necessário conhecer um pouquinho mais essa cidade enquanto sua história de lutas, para que as resistências não sejam invisibilizadas. Dizer que a população de Juiz de Fora, como um todo, é passiva e omissa frente às manifestações racistas é deslegitimar a luta de um grupo de militantes da cidade que há décadas questiona os privilégios e opressões por parte da elite branca que passa o ano inteiro depreciando a estética e cultura negra, mas que no carnaval pinta o rosto de preto e usa peruca black power para representar e homenagear aqueles/as que @s exclui e discrimina. No entanto, deve-se ponderar o porquê do bloco Domésticas não ter sido questionado ao longo destes 58 anos, e o porquê terem sido incorporados à cultura local, até o momento de se tornarem uma “tradição”. O fato de não ter havido questionamentos anteriores, mais contundentes, de militantes do movimento negro na cidade, não exclui o fato de que há traços marcadamente racistas no bloco, que vem trazendo enredos carregados de duplos sentidos, reduzindo a mulher negra trabalhadora ao sexo e à escravidão.

Se a tradicional marchinha de carnaval já nos alertava que “O teu cabelo não nega mulata porque é mulata na cor / Mas como a cor não pega, mulata / Mulata, eu quero o teu amor”, o Domésticas de Luxo vem dizer, simbolicamente, que sim, “a cor pega”, momentaneamente ou momescamente, naqueles que os acompanham nessa grande folie que, ao invés de carnavalizar, subverter e inverter, mantém tudo como está, apesar da aparência do branco que empretece. É nesse sentido que se pode dizer das “sutilezas do racismo” cotidiano que impera, reproduz e se reatualiza, retroalimentando-se no imaginário social. As mulheres negras morrerão negras, enquanto algumas conseguem deixar de ser domésticas.

Resta-nos, por fim, analisar alguns versos dos enredos desse bloco, no intuito de desfazer todos os mal-entendidos e as artimanhas da língua portuguesa, pois, como nos explica Barthes, “o poder está presente nos mais finos mecanismos do intercâmbio social; chamo discurso de poder todo discurso que engendra o erro e, por conseguinte, a culpabilidade daquele que o recebe. Não vemos o poder que reside na língua, porque esquecemos que toda língua é uma classificação, e que toda classificação é opressiva”. Corroborando este pensamento, Douglas Belchior diz que “é preciso estar alerta. Fugir à regra da cognição racista é tarefa das mais difíceis. Se a missão é combater o racismo, não se pode utilizar da mesma lógica estrutural que organiza o pensamento racista”.

O enredo de 2010, “Pretinhas de chapinhas” (Eduardo Furtado e Jânio Eust), inspira as foliãs a aderirem ao uso da chapinha e a darem uma “alisadinha no caô”. Hoje estou mais feliz, vou viver no mundo da ilusão / vou mudar meu visual, vou jogar confete no meu coração, / vou fazer o que sempre quis eu vou ser atriz, etc. e tal… // Pretinhas de chapinha chapam todas… e fazem o carnaval acontecer… no samba, no batuque ou gafieira brincam até o dia amanhecer…”

 Dessa maneira, é preciso ressaltar a apropriação cultural, visto que o cabelo crespo não é representado como belo pela sociedade e pelos meios de comunicação no Brasil, oligopolizados por uma pequena elite. A ilusão de mudar o visual do cabelo para um padrão socialmente aceito e assim realizar o sonho de ser atriz, parece um enredo muito frequente na vida das mulheres negras que alisam seus cabelos, vistos pela sociedade como duros e ruins, para se sentirem belas e aproximarem-se do referencial de beleza que é branco, loiro, de olhos azuis e cabelos longos. O black face também é um elemento racista muito utilizado no carnaval e no “humor” como ferramenta de opressão.

Em 2014, com o enredo “A PEC das Domésticas” (Jânio Eust e Odério Filho) o bloco, que diz homenagear, traz em sua letra, “emprestando voz” à empregada doméstica negra, que “Comida boa – Eu dou! Boto até marmanjo prá mamá!”. Dessa forma, um enredo que trata essa pessoa como “comida” e que diz que essa mulher bota “até marmanjo prá mamá” não pode estar querendo que se acredite que estão homenageando as mulheres, uma vez que a colocam como objeto sexual e fazem referência à ama de leite, geralmente associada às mulheres negras que, no período escravocrata, deixavam de amamentar seus próprios filhos para amamentarem os filhos do senhor da casa-grande. É a mulher negra mais uma vez colocada num espaço sexualizado, é a bunda grande e os seios fartos que seduzem, tal qual as famosas mulatas do Sargentelli, tal qual é a imagem do Brasil no exterior, lugar de mulheres para se levar pra cama, local perfeito para o turismo sexual, em que ela, para ser escravizada nos bordeis europeus, se faz sequestrar.

Em 2015, o enredo “Era uma vez… Domésticas de luxo no mundo da imaginação” (Velloso, Bitarelli, Marlon e Wilsão), traz as personagens infantis incorporadas pelo Domésticas, fazendo alusão aos contos de fadas que nunca representam princesas negras, mas que agora é a chapeuzinho que o lobo vai comer, é a Branca de Neve que pegou os sete anões e que, enfim, encontrou um príncipe que a beijou. Ilusões. Contudo, na realidade, continua sendo a negra escrava que só serve para o sexo. Desilusões. Assim, fica claro que o bloco, em momento algum, homenageia as mulheres negras, mas, ao contrário, confirma todas as discriminações e estereótipos classistas, racistas e sexistas de uma sociedade excludente.

Finalmente, é preciso compreender que a principal questão não é quem está falando, mas quem está silenciado e amordaçado sob o discurso da homenagem e da tradição, pois tradição não é passado, é futuro!

Com muita militância, resistências e lutas…

Alline Aparecida Pereira

Maria Luiza Igino

Jéssica Campos Martins

Mulheres pretas, juizforanas, acadêmicas e em movimento!

Candaces

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Henrique Soares de Sique
5 de março de 2015 02:08

É de se lamentar que o Bloco Carnavalesco Doméstica de Luxo seja taxado de racista, sexista de uma Sociedade Excludente. As Domésticas de Luxo sempre foi um bloco descontraído e alegre, sua maior virtude é a descontração de seus participantes em contato com a populaçāo juizdeforana. Por fim, quero dizer o seguinte: Em momento algum de sua existência teve este bloco a miníma intençāo de agredir ninguém, como diz na música de de Noel Rosa” A Vila nāo quer agredir ninguém só quer mostrar que faz samba também”, assim termino dizendo: ” As Domésticas de Luxo nāo quer agredir ninguém só quer mostrar que faz a alegria também”

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Caro Henrique Soares vivemos em uma sociedade em que muitas práticas ofensivas foram por muito tempo consideradas normais. Quantos adultos recordando de seu passado percebeu que chamava um colega de escola, de gordinho, orelhudo, magrelo e não era por maldade, era só gozação. No entanto, vemos os casos, na atualidade, de crianças que são alvos dos mesmos achincalhamentos sendo tratadas de forma diferente, pois hoje sabemos que isso é bulling e o quanto ele pode ser danoso para quem o recebe.

O mesmo acontece com as mulheres no Domésticas de Luxo, anos de anos sendo retratadas como seres que nasceram para limpar e para satisfação sexual. Se vc faz parte do grupo, sabe que não estou mentindo, olhe com atenção as letras dos últimos cinco seis anos por exemplo e veja se gostaria que alguma mulher da sua família fosse “homenageada” assim.

Pode parecer apenas uma singela brincadeira, mas que vem perpetuando na cidade os espaços que a mulher negra deve ocupar.

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